Quem não conhece não encontra razões para amar: uma lembrança de Glênio Fagundes

Quando eu era mais novo, havia um programa que fazia parte dos meus domingos: o Galpão Nativo, da TVE, apresentado por Glênio Fagundes. Eu gostava de assistir às músicas, aos causos, às conversas e principalmente à maneira como ele conduzia tudo aquilo. Existia muito respeito pela cultura gaúcha, mas também muita proximidade. Nada parecia distante ou engessado. Era uma cultura viva, contada por gente que fazia parte dela.
E havia uma frase que eu lembro de ouvir muitas vezes: “Quem não conhece não encontra razões para amar.”
Na época, talvez eu não pensasse tanto sobre o significado dela. Hoje penso.
O Galpão Nativo foi criado por Glênio Fagundes em 1982, na TVE, e se tornou um dos espaços mais importantes de valorização da cultura nativista no Rio Grande do Sul. Ao longo dos anos, reuniu música, poesia, histórias, personagens e conversas que ajudaram muita gente a conhecer melhor a própria cultura. Glênio tinha uma relação profunda com esse universo, como comunicador, escritor, poeta, compositor e pesquisador da cultura pampeana, mas talvez uma das coisas que mais marcassem quem o acompanhava fosse justamente a capacidade de aproximar todo esse conhecimento das pessoas.
Eu era uma delas.
Talvez por isso aquela frase tenha permanecido comigo durante tanto tempo. Porque ela fala de algo simples e, ao mesmo tempo, fundamental: é muito difícil criar vínculo com aquilo que nunca tivemos oportunidade de conhecer.
Quando falamos em preservar uma cultura, é comum pensar primeiro em proteger costumes, símbolos e tradições. Tudo isso é importante, claro, mas existe uma etapa anterior. É preciso fazer com que as pessoas tenham contato com essa cultura. Contar suas histórias, apresentar suas músicas, explicar suas referências, mostrar seus personagens e permitir que novas gerações encontrem um caminho para se aproximar dela.
Conhecer cria curiosidade. Curiosidade pode virar identificação. E identificação, com o tempo, pode virar afeto.
Isso também ajuda a entender por que uma cultura não precisa permanecer exatamente como sempre foi para continuar sendo verdadeira. Cada geração encontra uma maneira diferente de se relacionar com aquilo que recebeu. Uma música pode ganhar outra interpretação, uma expressão antiga pode aparecer em um novo contexto, um causo pode se transformar em ilustração e um personagem pode nascer de referências que existem há muito tempo.
A cultura não deixa de ser cultura porque muda de linguagem. Muitas vezes é justamente assim que ela continua chegando a novas pessoas.
Olhando hoje, talvez uma das coisas mais bonitas do Galpão Nativo fosse exatamente essa capacidade de abrir uma porta. Quem conhecia muito podia encontrar ali artistas, histórias e referências importantes. Quem conhecia pouco podia simplesmente sentar diante da televisão em um domingo e começar a descobrir aquele universo.
Eu fiz isso muitas vezes.
E talvez sem perceber, fui acumulando referências que permaneceram comigo e que, muitos anos depois, ajudam a explicar até a forma como eu enxergo a Gaucheria.
Claro que são coisas de tempos e linguagens completamente diferentes. O Galpão Nativo teve a sua história e a sua importância. A Gaucheria existe em outro contexto, usando ilustração, humor, personagens, roupas e conteúdo para conversar sobre cultura gaúcha. Mas existe um ponto de encontro entre essas duas coisas: a vontade de fazer alguém olhar para uma referência e querer saber um pouco mais sobre ela.
Talvez eu tenha demorado muitos anos para entender por que aquela frase ficou guardada.
Hoje ela parece muito mais clara.
“Quem não conhece não encontra razões para amar.”
Talvez conhecer seja mesmo o começo de tudo.
Do Rincão de Gaucheria para o mundo.
